Narcisismo e o Medo de Envelhecer: uma sociedade sem futuro!
Sócrates andava pelo mercado de Atenas e perguntaram-lhe o que fazia. Ele respondeu: “Estou apenas observando todas as coisas de que não preciso para ser feliz”.
As instituições e as figuras de autoridades (pai e mãe) foram desmoralizadas em nossa cultura moderna, cedendo lugar aos novos heróis: a mídia, a propaganda, o entretenimento e as celebridades. Vivemos em uma sociedade de espetáculo, dominada pela aparência, e que “encontrou” no consumo a “salvação” para todos os males. Temos uma sede insaciável de consumo e, por mais que se possua novos objetos, não conseguimos saciar a compulsão de obter cada vez mais. A sensação de vazio e a falta de perspectivas, aliás, é uma característica marcante do Homem atual, que vive em função dos seus desejos.
O narcisismo é considerado um dos estudos mais importantes de Freud e um dos fatores centrais na evolução de seus conceitos. O tema continua sendo uma fonte inesgotável de reflexão até hoje. Na busca de satisfação, juventude e beleza, os narcisistas modernos investem em objetos, fórmulas ou comportamentos que valorizem a sua imagem. Investem neles mesmos, porque querem perpetuar o presente, o aqui e agora, a eterna juventude.
 Em 1914, Henry Ford criou dentro de suas fábricas um Departamento Sociológico para supervisionar a vida privada dos operários. Antes, logo no início do capitalismo industrial, os operários eram vistos apenas como “burros de carga”. Esses especialistas investiram duramente contra o tabaco e o álcool, porque pensavam que assim tornariam os empregados seres sóbrios, produtivos e zelosos. Nessa época, alguns poucos empregadores já haviam percebido que o trabalho poderia ter outra utilidade para o capitalismo. Foram criados aí os embriões do que conhecemos hoje como consumidor, produção de massa e de uma organização do consumo e do lazer.
A economia moderna – com todo o seu desenvolvimento tecnológico, capaz de satisfazer as nossas necessidades materiais básicas – precisava criar um outro tipo de mercado e de consumidor. E foi isso que aconteceu! Hoje, somos levados a consumir mercadorias e produtos de que não temos sequer necessidade. Para o estudioso Guy Debord – citado no livro “A Cultura do Narcisismo”, de Cristopher Lasch, –
“quando a necessidade econômica se resume na necessidade de desenvolvimento econômico ilimitado, a satisfação de necessidades humanas básicas cede lugar a uma fabricação ininterrupta de necessidades”.
Surge então um outro tipo de consumidor: compulsivo, insatisfeito, intranquilo, ansioso e entediado. Esse Sujeito tem um apetite voraz e está sempre em busca de novas experiências de satisfações, não para o seu crescimento pessoal, mas como um modo de vida.
Envolvidos nessa atmosfera de consumo – da busca do prazer, da saúde, do culto à beleza e do horror à velhice -, estamos vivendo uma nova patologia social desde as décadas de 1960 e 1970, segundo o crítico social Christopher Lasch. O narcisismo coletivo tornou-se uma disposição predominante, inicialmente na sociedade norte-americana, e vem se espalhando pelo resto do mundo. Com o aumento da expectativa de vida, criamos uma ilusão de que podemos driblar a velhice e a morte.
Envelhecer em uma sociedade que não valoriza a maturidade e a experiência – para isso é preciso viver, ter uma estrada – significa também ser deixado de lado, perder a força e a importância social, no trabalho e dentro da própria família.Não só abandonamos os nossos velhos como as nossas crianças também, que, criadas sem limites e subjugadas aos desejos necessidades vazias, sofrem um outro tipo de abandono e desamparo. Sem recursos para abandonarem a onipotência, as crianças abastadas, que padecem do excesso, são o centro do universo e, no futuro próximo, os adultos que não enxergam os demais à sua volta.
Vivemos em uma sociedade que prefere negar a velhice e, consequentemente, a morte. Cultua a longevidade e tudo aquilo que possa “garantir” a sua aparência e “força”, já que, concretamente, perdemos a influência sobre os mais jovens. Para Lasch, por trás do terror à velhice há um culto ao Eu. Existe uma indiferença pelas gerações futuras, assim como uma ilusão de um mundo sem velhice. Patológico em sua origem, o movimento pela longevidade a qualquer preço exprime a ansiedade de uma cultura que não acredita no futuro.
Mas qual seria o futuro de uma sociedade narcisista que só pensa no próprio umbigo? Para o diretor de cinema Wim Wender, no belíssimo filme “Janela da Alma”, os olhos foram educados para consumir, mas a sua miopia acentuada o ajudou a ter uma visão mais focada e seletiva. Em um mundo saturado de imagens, o cineasta conclui que é fundamental fazer uso da emoção como elemento transformador da realidade.
Freud já havia encontrado uma saída digna para o narcisismo, enquanto pensava e escrevia sobre o assunto: o investimento no Outro. Quando amamos e desenvolvemos os nossos afetos, somos capazes de deixar de lado o nosso narcisismo e egoísmo. Portanto, traçar um futuro ou vislumbrá-lo só é possível a partir da existência de um Outro, da possibilidade de amar e de cuidar. Novas capacidades como a emoção, o afeto e a sensibilidade, desenvolvidas e valorizadas, são as molas propulsoras para uma transformação e uma convivência mais amorosa e tolerante em sociedade.
Por Sandra Teixeira – psicanalista

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